A Astrologia é Espiritual

Do ponto de vista espiritual, no contexto astrológico, todos os indivíduos estão sujeitos às dinâmicas do Spiritus, seja de forma positiva ou negativa. Quando falo em Spiritus, neste contexto, considero que todas experiências da vida condicionam a subjectividade e a construção da individualidade de um sujeito: a identidade social que o identifica, a sua história pessoal e o conhecimento que adquiriu das suas experiências, compartilhadas com uma compreensão própria. Tal compreensão transcende a sua realidade e encontra espaço no seu íntimo, sublimada pelas suas emoções.

Portanto, neste ponto de vista, as experiências da vida de um indivíduo correspondem a uma sequência de presenças e experiências espirituais, algumas boas e outras menos, que influenciam a compreensão de si mesmo. Deste modo, o seu mundo interno e condicionado pelas suas opiniões e processos de julgamento, tendo em conta as circunstâncias históricas, sociais, políticas e culturais. O que tudo isto remete para motivações internas, que designa a dita Psicologia tal como a conhecemos, mas, que os Medievais associavam à presença e à influência de “espíritos”.

Geralmente, os espíritos podem ser compreendidos como figuras humanas extra-físicas ou até associadas a fantasmas e a seres demoníacos, dependenfo da perspectiva cognitiva sobre os espíritos. Na minha opinião, traduz-se por energias ou manifestações que influenciam directamente e indirectamente o nosso Spiritus, tenham elas forma ou não.

Astrologicamente falando, estes espíritos podem ser naturais ou inatos, associando-se às Motivações Primárias ou ao Ingenium. Podem também ser espíritos alheios, designados por Cacodaimon ou Evdaimon.

Observando o mapa natal como exemplo, o signo de Gemini (Gémeos) ascende no mapa e o regente, Mercúrio, ascende também em Gemini, no seu signo em conjunção a Júpiter. Uma leitura de cariz astro-psicológico traduz esta configuração por um indivíduo versátil, que adora comunicar e expressar as suas ideias, tendencialmente dispersivo e volátil. Demonstra um intelecto notável e tentará dominar as suas áreas de interesse, nas quais poderá leccionar e trabalhar.

Numa abordagem Medieval ou tradicional, Mercúrio no seu domicílio demonstra pessoas de natureza inventiva, preocupados e ocupados com as mais diversas coisas, precipitados, desleixados, inconstantes e os que mais surpreendem nas circunstâncias da vida. Rege os astrólogos e os e os que brilham pelo intelecto, dotados em diversas áreas científicas e literárias, portadores de visões, do conhecimento e de profecias (por influência de Júpiter), inclinados para a investigação e tendenciosos nas artes divinatórias.

Do ponto de vista espiritual, a força gerada pelo Spiritus deste indivíduo é canalizada para as Motivações Primárias, para os Talentos, Habilidades e para o Corpo/Imagem. Portanto, ao longo da sua existência é de extrema importância que desenvolva o espírito racional e os seus interesses intelectuais, que discipline a mente e que expresse os talentos de forma saudável e harmoniosa, evitando bifurcações e dispersão.  Este será um padrão constante, como uma força motriz, sendo mais notório quando demonstrado por trânsitos, profecções, firdaria, revolução solar ou outras técnicas preditivas.

Os “espíritos” que nos rodeiam, com forma ou sem forma, materiais ou imateriais, afectam de forma poderosa os estados e a perspectiva cognitiva sob qual filtrámos as diversas circunstâncias. Portanto, um pai, mãe ou um familiar que está muito nervoso e alterado, depois de um dia de trabalho, tenso e frustrante, vai interferir com o Spiritus do filho pela convivência diária e rotineiro, assim como, pela reciprocidade nas dinâmicas familiares. Da mesma forma, que um amigo(a) quando chora ou desabafa, demonstrando melancolia e tristeza, tal estado melancólico vai condicionar o Spiritus da pessoa que ouve atentamente e aconselha perante as suas preocupações e pensamentos menos bons. Estes exemplos de dinâmicas sociais, familiares ou de outra natureza, com facilidade, podem condicionar os nossos estados, especialmente se não tivermos uma correcta percepção ou uma sensibilidade controlada. Pois tudo é energia, que exige um equilíbrio e um fluxo, desde os laços sociais que nos condicionam à comida que ingerimos e, até, ao ar que respirámos.

A mesma coisa acontece com o Spiritus dos Planetas que nos indicam que tipo de influências são exercidas numa determinada Casa ou Asssuntos, podendo ser nocivas, maléficas e corruptas ou benéficas, gratificantes e alegres. Através da natividade podemos encontrar 5 tipos de Spiritus:

– Casa I é o Ingenium;

– Casa XII é o Malus Daemon/Cacodaimon ou o Mau Espírito;

– Casa XI é o Bonus Daemon/Evdaimon ou o Bom Espírito;

– Casa IX é Deus;

– Casa III é Deusa;

Os magos e os filósofos medievais acreditavam que todos as coisas vivas e animadas eram consideradas, hierarquicamente, de acordo com o nível da sua existência. Portanto, é espelhado um sistema de níveis, que variam desde a matéria/substância até aos reinos minerais, vegetais, animais, humano, angélico/demoníaco e por fim Deus ou Absoluto.

Alguns dos astrólogos medievais usavam a Astrologia em simultâneo com a magia, pois compreendiam os diferentes Spiritus das coisas existentes e sabiam como interagir com, para próprio benefício ou em prol das vontades de outros, mas sempre com um preço a pagar, pois tudo requer o seu equilíbrio e harmonia.

A Astrologia Electiva era utilizada para a fabricação de talismãs com os mais diversos propósitos, através de Imagens ou Sigil. Alguns Nigromancers verificavam os resultados das suas práticas através de invocações e investigações por meio de clarividência, para os comparar com ajuda de Astrologia Horária. Seja como for, entre estas práticas as variadas hierarquias eram invocadas e sintonizadas para as mais diversas intenções.

Observe um dos exemplos usado por Guido Bonatti na prática de exorcismo:

“Se desejas eleger um momento para expulsar um fantasma, ou um espírito maligno que aterroriza ou perturba um lugar ou uma casa, ou alguma forma absurda e terrível que nada tem de bom em si ou no ente querido, e desejas criar medicina ou executar um exorcismo, usa o Ascendente e o seu Regente, mas que não esteja em Caranguejo, Leão, Escorpião ou Aquário. Não deixes também que a Lua esteja num desses signos. Faz com que o Ascendente esteja em outros Signos, assim como a Lua, mas junta esta a um benéfico afortunado.”

Nos 7 Segmentos de Girolamo Cardano, este demonstra uma das configurações associadas ao uso de feitiçaria:

“Mercúrio como Significador de Doença em aspecto com Saturno ou vice-versa demonstra suspeita de feitiçaria e encantamentos.”

Assim como de Nicholas Culpeper:

“O Regente da Casa XII na Casa VI mostra feitiçaria e possessão por maus espíritos: e caso seja um Regente Maléfico, podes assumir como garantido.”

Ainda hoje, certos tipos de práticas ou áreas ditas esotéricas são severamente criticadas e vistas com desdenho pelas comunidades de esoterismo. É também, de certa forma, um paradoxo, que os astrólogos ocidentais, ditos modernos e contemporâneos, não têm qualquer problema em aceitar a magia dos Hindus, a magia dos budistas tibetanos, a magia dos índios americanos ou a magia dos aborígenes australianos, mas ficam reticentes à experimentação das práticas mágicas sem as compreender de forma mais aprofundada, fogem e permanecem na superficialidade do saber, ignorando que tais práticas existem dentro das suas própria comunidades, por medo que as suas realidades e perspectivas se alterem. A ideia é mesmo essa, aprenderem a alterar a realidade que edificam assim como a energia das coisas para algo mais saudável e harmonioso.

O astrólogo oriental, hindu ou budista, em primeiro de tudo, dirá sabiamente que a prática religiosa ou o Sadhana, é um dos meios para se desviar das influências hostis. Na tradição judaica, existe a doutrina “Não há signos para Israel”, em que o devoto que pratica avidamente o Mitzvah e as requeridas práticas religiosas, está a salvo das influências dos astros. Os mesmos astrólogos orientais irão aconselhar, caso tenhas um problema, que rezes para um dos deuses ou deusas, para ajudar no tipo de assunto. O astrólogo, segundo a sua prática irá dizer qual dos deuses deves procurar, que tipo de prece deves fazer e como atingir tal benesse.

Entre os Indianos e Budistas, existe um conceito de adoração aos ancestrais ou do culto aos Pitris, que segundo a teosofia foram os progenitores da raça humana: uma classe de espíritos assumidos como Os Originais. Estes eram os Manes na tradição romana, e os Lares e Penates.

Já na cultura ocidental, na Igreja Católica e Anglicana, é prática popular comum procurar ajuda e por misericórdia perante deus, santos ou mártires. Existe uma prática oculta que sobreviveu e ainda remanesce nos dias de hoje no seio do catolicismo, contudo quase esquecida: o uso dos Salmos como feitiçaria para produzir uma defesa ou barreira contra outras feitiçarias. Esta prática estava em voga principalmente no século XVII e bem viva nas colónias americanas. Note um dos Salmos usado contra inimigos e ladrões:

“Contempla, Deus é a minha Salvação. Eu vou confiar e não vou temer, pois o Senhor Jeová é a minha força e a minha canção. Ele também se tornou a minha Salvação. Para que as estrelas do céu e as suas constelações não projectem a sua luz. O Sol deve tornar-se escuro no seu caminho e a Lua não deve reflectir a sua luz. E contempla, à tarde, problemas, e antes da manhã, Ele não o será. Esta é a porção que nos prejudica.”

Aquele que se considera Astrólogo na sua profissão ou vocação tem à sua disposição uma série de alternativas tais como a naturopatia, homeopatia, herbalismo e a terapia floral que servem de boas medicinas contras as mais diversas aflições e, algumas, providenciam uma similaridade entre a Astrologia e a designada Materia Medica (usada desde o Império Romano, mas que hoje é conhecido por farmacologia). Mesmo as medicinas criadas pelas práticas alquímicas eram bastante usadas e praticadas no Ocidente em tempos mais remotos, impulsionadas principalmente por Paracelsus. Todas estas práticas são hoje ignoradas, refutadas e até menosprezadas por ignorância e estupidez, até por astrólogos.

Ainda neste contexto, sobre as influências que interferem com o Spiritus, astrólogos indianos aconselham aos seus clientes a vestiram roupas de uma determinada cor, em dias particulares e em ocasiões particulares para potenciar um determinado efeito sob circunstâncias em particular – algo que é popularmente comum na Índia. Entre os Europeus e Americanos, esta é apenas uma superstição. Contudo, as cores, apesar de serem utilizadas para propósitos de estética, moda, design e artes, geram um impacto tremendo nas dinâmicas sociais e é comprovado que alteram certos estados mentais e emocionais. Angela Merkel, como exemplo, reconhece os efeitos do usos das cores e as utiliza nos seus eventos quanto pretende dirigir-se ao público para falar de um determinado tema ou assunto. É também bastante utilizado em campanhas políticas e de marketing.

O Astrólogo ou o Ocultista sabe que existem outros ‘mundos secretos’ ou dimensões e reconhecem 7 poderes ou faculdades:

– A Lua representa as visões e os sonhos;

– Mercúrio, a análise e a razão;

– Vénus, o amor e a beleza;

– Sol, a sabedoria do coração e as virtudes;

– Marte, o conflito e a ira;

– Júpiter, a tradição e o conhecimento;

– Saturno, a sabedoria e os cultos;

Os alquimistas designam a procura dos segredos da natureza, por V.I.T.R.I.O.L (Visita o Teu Interior, purificando-te, encontrarás o Teu Eu Oculto), que é a recognição das virtudes inferiores e superiores. Também considerado como uma palavra-passe para os místicos “Abre-te Sésamo, para o Mundo Oculto dos Deuses”.

O Picatrix diz-nos que o amor é essencial quando pretendemos perceber a nossa relação com as visões, com os sonhos, com os nossos relacionamentos e com as nossa motivações, e faz-nos atingir aquilo que se designa por Natura Completa. A perfeita recognição da nossa essência que nos faz entender a razão, a beleza, as nossas virtudes, o dinamismo, a tradição, a sabedoria, a procura pela verdade e do perfeito equilíbrio com o Spiritus.

Spiritus denota a parte imaterial de um ser ou pessoa, de uma inteligência, ou de uma forma distinta separada da nossa existência material e física. Pode-se considerar que a Astrologia pouco tem a dizer sobre espiritualidade, contudo a Igreja considera-se a si mesma, a solo, a representação de Deus, dos Anjos e dos Mártires na Terra e, mas nunca viu as práticas astrológicas, embora em contexto espiritual, se assemelhem por determinadas analogias e conceitos. Contudo, na Astrologia, aceite como ciência celestial natural pelas forças católicas, assentam os princípios cabalísticos e do hermetismo, cheia de espíritos.

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